rammspecial

O jornalista Alexander Gorkow passou uns dias com o Rammstein durante uma tour e se impressionou com a banda, com o show e com a arte deles em geral. Till Lindemann, em especial, parece ter despertado seu interesse em maior proporção. Algumas palavras do jornalista sobre a experiência:

A mais feliz, a mais triste rebelião.

¨Você precisa de eletricidade. De baixo do palco, fontes de fumaça passam pelo chão furado até o teto. De baixo, chamas são atiradas para cima através de uma grelha. De baixo, a luz brilha pela grelha de metal. Na grelha, está o vocalista do Rammstein, Till Lindemann. Ele parece um pouco triste. (...) Então ele pergunta para inúmeros norte-americanos: ¨Podem corações cantar? Pode um coração se partir? Podem corações ser puros? Pode um coração ser de pedra?¨

As pessoas aqui cantam cada palavra. Elas se estremecem com o fogo. Elas suam no calor. Fecham os olhos por causa da luz. Trata-se da escuridão e de como a luz entra na escuridão. A luz com o Rammstein é, por exemplo, um coração vermelho preso no peito de Lindemann que bate no escuro do Coliseu.

Till Lindemann tem algumas cicatrizes em seu corpo e em seu rosto. Por exemplo, ele cabeceia o microfone com a testa a cada noite. Se você olha esse show de perto, é obrigado a dizer: isso é realmente perigoso. Tem cicatrizes por causa do fogo, irritação nos olhos por conta da luz e da fumaça, queimaduras por conta das labaredas. A escuridão é uma coisa, a luz é outra. O volume é uma coisa, o sussurro é outra. O sofrimento é uma coisa, o humor é outra. Você não entende o Rammstein se não aceita contradições.

O poeta e vocalista Till Lindemann: guerreiro da dor? Um personagem de Döblin? O lobo mau? Por trás das máscaras e das feridas, está um homem de voz calma e um brilhante contador de histórias que, quase em pânico, evita fãs para trabalhar suas letras e poemas em paz. No palco, ele vira uma fera. Ainda assim, é um homem que se senta em silêncio e, como se fosse sugado pela sombra do bar de piscina no hotel de Phoenix, olha seus escritos, seus desenhos, e estamos quietamente bebendo Budweiser num calor tremendo. Não só uma, mas uma após a outra. De repente, seu olhar se recai sobre um corvo que está espiando uma cesta de pão na outra mesa. Ele não consegue parar de observar o pássaro, ele olha e diz ¨Olha. É lindo. Um pássaro bem esguio. Estão em todo canto por aqui: animais espertos, esguios¨. Ele tem desenhos com ele, com dragões bem pintados e nuvens inchadas. Alguns poemas são para seu neto, o pequeno Fritz. Alguns poemas não são para nenhum pequeno Fritz do mundo.

Mas, sempre, sua poesia é sem perfume. É clara, amarga, audaciosa, coisa sensível. Às vezes, viram músicas do Rammstein. Às vezes, não. Às vezes, são pequenas histórias. Às vezes, são só duas linhas sozinhas numa página e, do nada, lembra as obras de Rainer Werner Fassbinder.

¨“In stillen Nächten weint ein Mann / Weil er sich erinnern kann”

(Em noites tranquilas, um homem chora / porque ele consegue se lembrar¨)

É insuportável contemplar, não é? Fassbinder e Lindemann! Marchando juntos! A mais feliz, a mais triste rebelião.

Leonard Cohen canta em ¨Anthem¨: ¨Tem uma fresta em tudo / É assim que a luz entra¨. O Rammstein fala sobre essa fresta, e é exatamente como no teatro: se você tiver sorte, e se você tiver visto uma grande performance teatral, então essa fresta vai estar na sua mente por um bom tempo. Mas, para isso, você precisa de inspiração. Você precisa da linguagem calma que Lindemann encontra no interior.

¨Minha mãe vive lá. Minha filha Nele e seu filho, o pequeno Fritz, estão lá sempre. Somos uma grande família. Eu pesco. Eu caço. Eu observo o lago. Durmo à noite na floresta e escuto. Escuto a natureza. É lindo o que você escuta à noite na floresta. É indescritivelmente bonito. Odeio barulho. Odeio tagarelice. Eu me exponho a isso, o que é puro masoquismo. E, então, preciso me proteger. O barulho te enlouquece. Você morre nele.¨

O Rammstein é um fenômeno universal e, diferentemente de um artista como Gerhard Richter, diferente de um diretorcomo Wolfgang Petersen, eles precisam não só confiar em imagens e sons, mas também na emoção da língua alemã, harmonizada à imagens e sons.

As pessoas aqui obviamente percebem que, por trás da aparência bruta da música, existe uma poesia assombrosa para a qual eles cantam. ¨Mas a noite lança um pano sobre a terra / E sobre os caminhos por trás dos limites da floresta¨.

Till Lindemann está de pé, de frente com Richard Kruspe, com seu roupão preto após o último show. Lindemann com uma cerveja, Kruspe com um cigarro. A mão direita de Lindemann está inchada, sua testa está sangrando, sua maquiagem está escorrendo pelas bochechas.

A primeira coisa que fará quando chegar em casa é elaborar o livro com seu neto. Ele está obcecado por isso. O título: ¨Querido Fritz, segure minha mão¨.

De agora em diante, silêncio.

O que resta?

Um cheiro, fino como uma linha, de enxofre.

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