rammspecial

Edição de Janeiro de 2006 
 
Playboy: Rammstein é arte?
Till: Há momentos desta banda que se tornaram arte, que se perpetuaram. No geral eu diria: fazemos música de entertenimento.

Playboy: Isso foi planejado assim?
Till: No início só queríamos dar nas vistas. Com letras extremas e música extrema. Irritava-nos, que, após a queda do muro, todas as bandas de leste soavam como Rock popular americano. Copiaram tudo, o som, os penteados, as tatuagens. Queriamos afincar um pontapé na boca deste "Copianismo".

Playboy: A sua provocação é calculada?
Till: O que é provocação hoje em dia? No tempo da Alemanha de leste era provocação andar por aí com um saco de plástico, no qual estivesse escrito "Edição Axel Springer" (Jornal editado no lado leste). Ser provocante depende do risco de ser alvo de represálias. Falar de provocação no ramo do entertenimento não liga.

Playboy: Mas compreende que uma música como a Mein Teil, na qual se fala do canibal de Rothenburg, possa ser vista como provocação? Você canta:
"Hoje eu encontrarei um homem
/Ele gosta tanto de mim que poderia me comer /partes macias e outras duras
/estão no cardápio/Porque você é o que você come
/e você sabe
o que é
/é a minha "parte".
Till: Nós não inventamos isso, isso aconteceu. Achamos tão inacreditável, que um homem fritasse o pênis de outro e o comesse em conjunto.Para o Pet Shop Boys, que, aliás, fizeram o Remix para nós, pareceu agradar-lhes.

Playboy: Há anos que o Rammstein são a banda alemã mais bem sucedida, quer dentro do país quer fora. Onde é que vocês acertam?
Till: Mexendo com os sentimentos. Necrofilia e pedofilia não aparece no Mainstream. No nosso trabalho sim, e isso incomoda muita. E ao mesmo tempo, mexe com elas (as pessoas).

Playboy: Incomoda principalmente, por cantar estes temas quase sempre na primeira pessoa. Porquê?
Till: Porque se torna direto. É exatamente esse o atrativo: eu sou o canibal, eu sou o molestador de criancinhas. Acho que seria covarde fazer isto na terceira pessoa.

Playboy: O seu homólogo americano, Marilyn Manson, visitou-o quando você fez shows nos EUA?
Till: Já nos encontramos várias vezes, sim. Tipo muito bom. Vive o seu papel a 100%, nunca está sem guarda-costas e sente-se como uma estrela de rock enquanto toma ducha. Tem de se enfeitar com acessórios permanentemente, enquanto que eu dispo as calças depois do concerto e pronto.

Playboy: Quando se fala contigo nota-se que tem uma voz muito suave, ao contrário do que se ouve nos cds.
Till: É a minha voz de barítono normal, quando canto a força vem toda de baixo. Faço isso de modo rude. Não tem muita técnica.

Playboy: Cantar profundo e um Rrrrrr rugido - é por isso que o Rammstein soam tão maus?
Till: Talvez. Eu canto por instinto. É um sentimento profundo - duro, soltar algo mau pelo cantar, aquilo que está profundamente enterrado na alma. Trabalha-se a vida, faz-se terapia a si mesmo durante o processo.

Playboy: Os ouvintes também?
Till: Acredito fortemente que a nossa música e os nossos shows ajudam à alma. Recebemos muitas cartas, a dizer que somos a única banda que abordam temas como violência e incesto. Há pessoas que nos escrevem, e dizem que já viveram algo do gênero e que estão gratas por haverem estas músicas. Entretanto as mulheres escrevem-nos com mais frequência, o que de início não era assim. Antes era mais tipo uma sauna masculina que nós tinhamos montado. Hoje metade do público dos nossos shows são mulheres.

Playboy: Rammstein enquanto psicoterapeutas?
Till: Há muitos aspectos. Também somos simplesmente um espetáculo de David Copperfield mais duro. Os pais nos trazem às crianças para verem fogos de artifício mais legais.

Playboy: Os shows do Rammstein foram sempre tão piromanos?
Till: Sim, desde o início, mesmo nos clubes mais pequenos. Nessa altura tinhamos uma mistura de gases numa garrafa de coca cola e no palco deixamos aquilo sair e incendiar. Passado pouco tempo, o ambiente estava cheio de fumaça e fogo.

Playboy: O fogo é a sua paixão?
Till: De modo nenhum, mas eu odiava ser observado em palco. Durante os solos de guitarra, antes, ficava em pé colado ao microfone. Parava para pensar, tenho de fazer algo, se não morro de solidão ou aborrecimento. Por sorte, um amigo meu era pirotécnico.

Playboy: Fica em pé em chamas no palco. Quanto perigoso é isso?
Till: Já chamusquei a minha perna, porque as calças começaram a arder por dentro. Entretanto a minha capa está tão bem isolada que não acontece nada. É constituída por uma cota de malha, formada por lâminas de metal, e isolante com três centímetros de espessura. Posso ficar em chamas uns quatro minutos à vontade, antes que o fogo atravesse a capa. Depois disso fico cheio de adrenalina. E sinto-me fantástico.

Playboy: Onde se traça o limite?
Till: Uma vez os fans acreditaram mesmo que eu estava a arder. O Flake veio com um extintor, que continha pó inflamável. Eu estava em chamas, a música parou, as luzes acenderam-se. Me joguei pelo chão e os ajudantes vieram com extintores a sério. Fizemos isso em 20 shows, depois tivemos de parar, porque os fãs acharam isso um grande mau gosto e reclamavam na internet. Estavam mesmo chocados.

Playboy: Que efeito de palco gostaria de criar?
Till: Chuva contínua. É tão bom tocar sob chuva, fizemos isso para um videoclip, mas no palco isso é impensável. Morreriamos electrocutados.

Playboy: Porque é que sobem ao palco de uma forma tão “marcial”?
Till: Se tocássemos música para “guitarras de folclore”, usávamos calças boca de sino e camisas com estampado de girassóis. Com os nossos fatos de palco, construímos uma moldura para o quadro que pintamos. Disso fazem também parte as pinturas de guerra e os troncos nús. TN, é o que chamamos a isso, Tronco Nú. Perguntamo-nos nos bastidores antes dos concertos: Hoje fazes TN? Nah, estou muito gordo. Para a semana que vem.

Playboy: Qual foi o fato mais arriscado (?) com que já tocaram?
Till: Vestimo-los quando tocámos num pequeno clube sem graça, quando tocamos pela primeira vez 3 shows em Nova Iorque. Aquilo estava lotado e usamos Lederhosen, em TN.

Playboy: Sem medo de mostrar clichés do folclore alemão?
Till: Claro. Lá a Alemanha é "mercedes, Sauerkraut e Lederhosen". Depois do concerto vieram dois hip-hopers negros e disseram-nos: nós odiamos esta Metal-Shit, mas vocês são bons.

Playboy: Já experimentou drogas?
Till: Antes, constantemente. Experimentamos tudo, menos drogas injetavéis. Desde erva até cocaína. Era um concurso: até que ponto é esta banda extrema? Puro exibicionismo.

Playboy: Porque parou?
Till: Por um lado, os espectáculos tornaram-se muito grandes. Por outro, o meu corpo começou a dar sinais. Em gravações na Suécia, não conseguia subir dois lances de escada, porque tinha-me enchido com cigarros, álcool e coca. Então veio uma bandeira branca e mostrou-me: se eu continuo assim ainda apanho uma má surpresa.

Playboy: Entretanto o Rammstein têm fãs famosos como o Heino.
Till: Sim, ele declarou recentemente ser fã de Rammstein. Gostou do nosso vídeo de montanhismo “Ohne dich”. O Udo Jürgen abordou-nos na cerimônia do Echo e quis tirar uma foto com a gente, porque nos acha bons, disse ele. Mas quem sabe, quem ainda nos dará um aperto de mão quando já não tivermos sucesso?

Playboy: Quer ser amado/adorado?
Till: A todo o custo. Quem diz que não, mente.

Playboy: As pessoas parecem gostar de vocês mais fora da Alemanha do que na própria.
Till: A aceitação lá (fora do país) é extremamente mais alta. É completamente inacreditável, quando em Paris-Bercy, a sala de espetáculos mais legendária de França, 20000 franceses cantam as nossas músicas em alemão. Em alemão! Embora os franceses se recusem a aprender línguas estrangeiras em todos os outros casos. Se é que me é permitido dizer isto: somos os pioneiros da amizade franco-alemã.

Playboy: Porque os franceses dizem “Bück dich” (“abaixe aqui”) quando tocam a “Bück dich”?
Till: Exato. É maravilhoso. No México chegam a cantar a letra completa, não só o refrão. Cada verso em alemão perfeito. Apesar do ódio aos gringos que se tem por lá, apesar da recusa ao progresso. Adoro os mexicanos.

Playboy: A música Benzin e o respectivo vídeo-clipe mostram no início traços auto-satíricos.
Till: Não tem muito que ver com ironia. A sede de gasolina simboliza o desejo de possuir muita coisa. Mas é verdade: de momento fazemos muitos vídeos engraçados. Mas já se torna tempo de navegar de novo para águas mais escuras.

Playboy: Como são feitos os seus textos?
Till: Em absoluto silêncio. Vista para a Natureza. Laptop. Primeiro vem a música, depois decido o que se põe lá no meio. Esta música podia ter que ver com água. Ou com um tipo nojento que ronda os jardins de infância.

Playboy: No novo álbum, Rosenrot, há uma música sobre homossexuais, “Mann gegen Mann”. Brevemente acusam-no de homófobo, não?
Till: Talvez. No entanto o meu impulso era outro completamente diferente: inveja dos homens que se acenam num momento e se engatam mutuamente sem precisarem da treta toda das flores e ir jantar três vezes antes de se poder passar ao nível seguinte. Para eles é mais simples do que para os heterossexuais. Os homossexuais olham um para o outro e fazem sexo rápido e bom. Tenho secretamente a esperança que se torne um hino nos clubes de homossexuais.

Playboy: Para o seu vídeo “Stripped” usaram imagens do filme “Olympia” da Leni Riefenstahl. Fariam o mesmo hoje?
Till: Não. Porque estou farto de ouvir dizer, que somos uma banda de direita. A minha filha – o que de mais querido tenho – veio falar comigo e perguntou: diz: "pai, tu tocas numa banda de Nazis?" Foi um ponto em que disse a mim mesmo, pisamos o risco. Tratava-se de substância.

Playboy: A sua filha é filha única?
Till: Tenho muitos filhos.

Playboy: De muitas mulheres?
Till: De muitas.

Playboy: Porque é que essas relações falharam sempre?
Till: Não existia sentimento, porque eu não estava preparado para me relacionar. Fui sempre deixado, e ficava sempre muito abalado com isso. De todas as vezes eu percebia: na verdade, ela tem razão. Só servia para uma coisa: sempre que uma partia, ficava a dor que me dava um incrível empurrão criativo.

Playboy: Era fiel?
Till: Não. Pensava sempre que tinha de me precaver. Caso viessem tempos difíceis. Foi uma colecção de One-night-stands e casos.

Playboy: Então hoje ainda é solteiro.
Till: Conheci uma mulher, ao lado da qual gostaria de envelhecer. Desde que a conheço, não tenho a necessidade de andar por aí à procura.

Playboy: Mau para o impulso criativo.
Till: Acho que nas traseiras da minha alma mantive uma câmarazinha ordinária. Posso-me enquadrar outra vez nos abismos, quando precisar.

Playboy: De que se lembra nessas alturas?
Till: Do desejo da morte. Antes era-me tudo completamente indiferente. Pensava que não podia passar dos 50 anos. Mas agora, com esta mulher, isso mudou. Sou um homem mesmo feliz. Entretanto desejo poder envelhecer.

Playboy: Tem 42 anos. Que idade tem a sua namorada?
Till: 28. Não consigo imaginar viver com uma mulher da minha idade.

Playboy: Quase esteve nos jogos olímpicos de 1980 em Moscow enquanto nadador da DDR. É verdade que foi expulso porque em Florença saiu secretamente do hotel por causa de uma aposta?
Till: Eu não queria fugir, só queria ver a cidade. Os carros, as motos, as moças. Fui apanhado, isso foi razão para ser expulso, mas também não me serviu de nada.

Playboy: Foi muito mau?
Till: Foi terrível. Antes nadava 30Km por dia, levantava-me às 5 da manhã e ia para a cama morto de cansaço. De repente estava o tempo todo num bairro de edifícios pré-fabricados e tinha de lutar para ser aceito. E beber muito álcool, isso contou para alguma coisa.

Playboy: O que sente quando se lembra da RDA?
Till: Até o dia em que todos foram embora e vazaram, sinto algo quentinho. Era mesmo algo para se aguentar. Enquanto banda punk podíamos tocar com uma licença do estado. E embora houvessem pessoas da Stasi (polícia secreta da DDR) nunca houve problemas. O choque acerca da RDA veio mais tarde, quando me apercebi de tudo o que tinha passado.

Playboy: Na altura da RDA não?
Till: Claro que, mais tarde quando se fazia formação, percebia-se que muito daquilo eram mentiras. Tipo quando uma fábrica inteira atirada às urtigas. Isso eram manobras de diversão (?). Hoje chama-se a isso ABM (?). (desculpem mas esta parte é demasiado histórico-política para eu lhe conseguir tirar sentido pelo contexto. Nem consigo descobrir o que é ABM... )

Playboy: Sente falta da RDA (Alemanha Oriental)?
Till: Não, mas as pessoas eram mais calorosas umas com as outras. Quem é que ainda se encontra em casa, hoje em dia? Antes o recolher às 10 era seguido à risca, e então ía-se para casa dos amigos. Isso criava muita proximidade. Isso hoje está morto.

Playboy: Nunca foi observado por amigos por parte da Stasi?
Till: Sim. Em parte por pessoas que me eram muito próximas. Isso foi um choque, mas eu faço a distinção: quem é que magoou alguém existencialmente e quem é que passou informações perfeitamente irrelevantes. E faço distinção entre quem fazia isso porque queria benefícios, e quem é que fazia isso porque era ameaçado pelos Stasis.

Playboy: É a favor da demolição do palácio da república de Berlim?
Till: Eu, por mim, deixava-o. É como uma pedra nos rins. Faz parte de nós, mesmo que doa.

Playboy: Em que gastou o seu dinheiro de boas-vindas em 1989?
Till: Em Lübeck, na fronteira. E depois fui a uma loja e comprei doces, gomas de animais, ursos, pastilhas de iogurte. Disse a mim mesmo: vou-me empanturrar até ficar gordo. Antes, um saquinho de gomas Haribo tinha de durar um ano inteiro.

P. Ainda gostaria de tocar em clubes pequenos?
Till: Não, também não quero voltar a andar de *o quê?.... um transporte público ou carro minúsculo, suponho...*. Gosto do fecho automático de janelas do meu carro, mesmo que não precise dele.

Playboy: Que carro conduz?
T. Um todo-o-terreno. É muito prático, já que moro no campo. Entre Schwerin e Wistmat (?). É a minha terra-mãe. Um sítio no cú de Judas. Dez anos depois de ter andado pelo mundo todo, é o melhor que me podia acontecer. Não gosto de estar mais que três dias numa cidade grande.

Playboy: Qual é o tamanho do local onde mora?
Till: Tem 12 casas. A minha tem um pequeno lago e uma bela vista para a naturaza. Fantástico.

Playboy: O Rammstein vão ser como os Rolling Stones, tocar ainda com 60 anos?
Till: Acho que com a gente vai acabar mais cedo. Por mim, com um show no Olypmiastadion de Berlin.

Playboy: A banda tem 6 meses livres no início de 2006. O que vai fazer?
Till: Vou com a minha namorada até à Costa Rica, lá compraremos um carro e vamos passear pela américa do sul. Com ela fiz um treino de sobrevivência na selva.
 
Entrevista traduzida por FERNANDA KALINE, a quem agradecemos e damos o crédito. 

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